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quarta-feira, janeiro 26, 2011

segunda-feira.

Na manhã seguinte não acontecia nada de novo. O mundo não tinha acabado, a dor de cabeça não tinha passado, o casaco ainda estava pendurado no cabide. A cama ainda era a mesma, o quarto o mesmo de sempre e a luz ainda estava apagada. Olhava fixamente para o tecto clareado pela luz solarenga que entrava morna pelas frestas da janela. Aquela do dia anterior.

Na manhã seguinte não se havia perdido nada; estava tudo no mesmo lugar, o dia do calendário era o a seguir ao anterior, não havia saltos de meses nem de anos nem de verdades. A Terra não ficara quieta, as pessoas não se tinham compadecido e gentilmente parado e prestado o seu apoio, a pressa ainda era a mesma, o tempo para os outros continuava sem existir.

O despertador tocou impacientemente para um novo dia, apesar de nada de novo ter acontecido… Sabíamos que ia ser sempre assim, desde aí em diante. Talvez mais tarde.

terça-feira, novembro 30, 2010

Desnuda

"Desnuda eres tan simple como una de tus manos:
lisa, terrestre, mínima, redonda, transparente.
Tienes líneas de luna, caminos de manzana.
Desnuda eres delgada como el trigo desnudo.

Desnuda eres azul como la noche en Cuba:
tienes enredaderas y estrellas en el pelo.
Desnuda eres redonda y amarilla
como el verano en una iglesia de oro.

Desnuda eres pequeña como una de tus uñas:
curva, sutil, rosada hasta que nace el día
y te metes en el subterráneo del mundo

como en un largo túnel de trajes y trabajos:
tu claridad se apaga, se viste, se deshoja
y otra vez vuelve a ser una mano desnuda."

Pablo Neruda

quinta-feira, novembro 18, 2010

Protagonismo

A nossa vida poderia ser – e se não o for já – equiparada a uma telenovela ou a uma série ou a um teatro… No fundo, interessa que interpretemos um papel. E apesar de nos preocuparmos com o que já está escrito, não nos debrucemos sobre quem escreveu aquelas linhas para nós, pondo de parte o guionista; interessa sim, antes de procurar a maneira de mudar de escrever a nossa história, saber a resposta a duas perguntas – e é daí que se começa: “que papel estou eu a desempenhar?” e “Será que me encaixo neste argumento?”.

É que, muitas das vezes, os actores não são as personagens; os actores são simplesmente actores e as personagens meras personagens. Portanto, pessoas diferentes no mesmo sítio, à mesma hora, no mesmo corpo. Mas uma delas não sabe o que está ali a fazer e nem o improviso lhe fica bem…

quarta-feira, novembro 10, 2010

Do amor

“O amor, realmente, é um artefacto estranho de se entender. Alguma gente diz que o percebe, pouca gente percebe quando o sente e ainda menos gente sabe quando está perante ele – ou quando ele está a um palmo do seu nariz. Ainda assim as pessoas insistem que é com ele que são felizes – que é o mesmo que dizer uns com os outros. Mas falando desse artefacto incólume e ao mesmo tempo tão desbaratado, as pessoas quando amam, e de ambas as partes, fazem sentir-se bem uma à outra, pondo cada lado com perfeito à-vontade para qualquer situação. O que de facto não pode sobrar é a evidência das qualidades soberbas e capacidades que cada singular tem para oferecer ao plural. De vez em quando, lá se soltam um ou outro tímidos defeitos, esses que nem eram para ser mostrados; mas que interessa? Há uma pessoa do lado de lá que nos ama. E desta maneira é que o amor funciona – as pessoas já não. Elas não são amor. Geralmente elas são mais complicadas e, para salvar a mão à palmatória, dizem ilustremente que o amor é que é. Ainda que as faça felizes…”

quinta-feira, outubro 21, 2010

Também quero

Alguém corria freneticamente rua acima, para o lugar onde ela ia dar. Acabava numa calçada cinzenta, uma espécie de praça, e ali estaria uma rapariga à espera da pessoa que corria louca. O rapaz chegou ao pé dela com o fôlego muito puxado e ainda sem recuperar pegou-lhe nas mãos e brindou. Gritou a plenos pulmões para o céu:

- EU ESTOU LIVRE, Maria! ESTOU LIVRE!

E muitas lágrimas lhe corriam pelo rosto enquanto dizia isto. Então abraçou-a, deu voltas e voltas com ela, até ficarem tontos, enquanto desejava um milhão de «obrigados». Ela ria e dizia-lhe para parar e ele parou e deitou-se no chão da calçada fria. Ainda a vê-lo chorar, não sabia se devia abraçar o amigo ou dizer para ele se levantar – as lágrimas seriam um misto de tristeza e alegria. Então ela deitou-se ao lado dele e perguntou-lhe:
- O que vês?

E ele respondeu à rapariga que estava radiante ao seu lado, por ao fim de tanto tempo ver o amigo a sorrir, ainda a soluçar:
- O céu hoje é vermelho e as nuvens são algodão doce… - disse entre uma risada que se estendeu até ao horizonte.  

segunda-feira, outubro 18, 2010

Não sei de amanhã

Eu não sei o que é, sabias?
Não sei aquilo que vai em mim
Nem porque é que me deu…
Sei que tem vindo há uns dias,
Não sei porque estou assim;
Sei apenas que sou eu.

Mas ser que não é ser quem...
O que se passa comigo dói
E foi assim que eu fiquei.
Sei que até não me faça bem...
Não sei é do que é que foi
Nem aquilo que é eu sei…

[é do Hoje]

terça-feira, outubro 05, 2010

Sempre o céu

Vem para ao pé de mim
E eu mostro-te
Que o tempo não existe
E que a realidade
É o nosso corpo
Apenas…
Vem para ao pé de mim
E eu mostro-te
Como eles fazem as estrelas
Como o céu não é limite
E como a lua
Tem vida…
Vem para ao pé de mim
E sente-te segura
Sem medo de acordar
Do sonho.
E entretanto,
Dá-me a mão…