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quinta-feira, junho 07, 2012

Um único amigo


Não tenho um único AMIGO! Não tenho ninguém que fique até mais tarde a conversar, já depois da hora, depois do pôr-do-sol mesmo; não tenho ninguém que tome comigo uma cerveja numa esplanada e não se importe com as horas nem com o facto de estarmos os dois calados. Não tenho ninguém que se preocupe comigo como a minha irmã (como os outros são egoístas…). Não tenho alguém que me ligue às três ou quatro da manhã e diga “vamos dar um passeio”, não tenho alguém que conheça a minha família como conhece a sua, alguém que sabe onde guardo as chaves de casa ou alguém que conheça o meu quarto; e a minha vida…

Não tenho ninguém com quem falar de mulheres, de futebol ou do último filme do cinema. Não tenho ninguém para sorrir, para fazer de cúmplice, para ouvir. Tenho pessoas que saem na sexta à noite e no sábado à noite e no domingo à tarde e, na ânsia e na correria de estar com tantos amigos, acabam por estar verdadeiramente com nenhum. Nem o serem até.

Há que distinguir bem quem são os hipócritas e quem são os verdadeiros e, por fim, ignorar os dois; o que há é distinguir os AMIGOS. De facto, a minha lista telefónica está recheada de pessoas e quase todas – todas – dizem ser minhas amigas…

domingo, março 04, 2012

Ninguém aprecia a beleza da chuva

Enquanto escrevo, chove! Eu gosto da chuva. Não de andar à chuva mas de ver chover. A água a cair cria melancolia em mim. Gosto de chuva, seja miudinha ou tempestuosa.

Sei que em cada gota que cai, qualquer coisa vai ficar mais lavada e pura, alguma coisa vai ganhar vida e sei também que quando a chuva passar vem o sol. Portanto, tudo aspetos positivos a tirar daquela água que já esteve cá em baixo e agora cai lá do alto.

Além do mais, o ato de chover é cíclico; por isso sabemos que as coisas se renovam. E como depois da tempestade vem a bonança, em nós renasce a esperança de que as coisas vão ficar sempre cada vez melhores – pensamento positivo.

Tudo isto cai entretanto lá fora, nas gotas de água que já estiveram sabe-se lá aonde. Por isso digo, ninguém aprecia a beleza da chuva…


terça-feira, janeiro 31, 2012

A máquina

Era uma vez uma máquina, uma máquina feita por anjos [pois era perfeita] que não funcionava. Essa máquina dava borboletas no estômago, mãos suadas, tremores, arrepios e calores. E dava beijos e abraços. (Uma máquina que dá beijos e abraços!) Mas não funcionava…

A máquina permitia ver tudo da forma mais bela, amolecia a aspereza, rejuvenescia até os corações mais velhos. Curava muita coisa que outros remédios não curam, fazia as pessoas dizer “é para sempre”, despertava solidariedade, iluminava os caminhos mais pardacentos, enchia os corpos de felicidade mas não funcionava a máquina…

Essa máquina, tecida nas nuvens mais genuínas pelos anjos mais falazes, era uma máquina nova com poucos anos de funcionamento. Então porque não funcionava? Ora, porque ninguém lhe “dava corda”… É lógico, para uma máquina chamada…


[...amor!]

sábado, agosto 06, 2011

Estou cansado

  "Estou cansado, é claro, 
   Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado. 
   De que estou cansado, não sei: 
   De nada me serviria sabê-lo, 
   Pois o cansaço fica na mesma. 
   A ferida dói como dói 
   E não em função da causa que a produziu. 
   Sim, estou cansado, 
   E um pouco sorridente 
   De o cansaço ser só isto — 
   Uma vontade de sono no corpo, 
   Um desejo de não pensar na alma, 
   E por cima de tudo uma transparência lúcida 
   Do entendimento retrospectivo... 
   E a luxúria única de não ter já esperanças? 
   Sou inteligente; eis tudo. 
   Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto, 
   E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá, 
   Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa."



Álvaro de Campos

terça-feira, maio 17, 2011

Ficção científica

Vinha eu confortavelmente sentado num banco de trás do autocarro número trinta e seis e eis que me deparo com mais um daqueles cartazes que publicitam os filmes em exibição no cinema. Lamento mas não vou fazer publicidade ao filme. Ocorreram-me imensas cenas de um filme romântico com um nome daqueles. E então comecei a pensar mais e mais, e quando pensei mais um bocadinho imaginei uma cena presente em quase todos os filmes do género – excepto se forem comédia: sempre perto do final, o(a) protagonista dão o fora, viajam não sei para onde por qualquer razão; e o outro(a) protagonista vai atrás do primeiro. E esta pequena cena deu-me que pensar. Pensei: “será que sim? Que se corre atrás de alguém?”; “será que é preciso fazer uma viagem para alguém correr atrás de nós?”; “ou será que os realizadores fazem de propósito para criar mais suspense?” (o que me pareceu a pergunta mais lógica!).

Na minha pequena dúvida sobre os filmes do género, que não os de comédia, olhei enredado pela janela com um ar tão pensativo como a estátua de Michelangelo. E vi uma menina muito bonita tipo Scarlett Johansson descer o passeio com uma t-shirt que dizia “I wait here for you” que, traduzido para português, significa “esquece lá os filmes românticos que não os de comédia”.

A mensagem que eu apreendi foi a seguinte. Na vida as coisas acontecem em tempo real. Na vida o final dos filmes não é reflectido porque as pessoas não são parvas nem ganham vinte mil dólares por fazer uma cena romântica. De facto, na vida, não temos de ter medo e desejar finais 'à la filme' porque as coisas acontecem naturalmente. Pelo menos enquanto meninas muito bonitas tipo Scarlett Johansson andarem com t-shirts que digam “I wait here for you” que, traduzido para português, significa…



domingo, março 06, 2011

Mãos


Uma está triste, coitada
ao lado da outra contente,
simples, como ela,
porém não apraz.
A segunda feliz, indulgente,
determinada
em puxar para frente
o que a puxa para trás:
a outra.
A primeira morre, fria, esquerda,
por não ser a dominante.
E fica cansada do caminho em vão;
a outra segue.
E eis que surge uma terceira:
a qual das duas dará a mão?



sábado, fevereiro 05, 2011

O insucesso da revolta

Sempre tive a necessidade de mudar frequentemente o fundo do ambiente de trabalho do computador; ou a imagem de fundo do telemóvel; ou o toque do telemóvel. Irritar-me-ia ficar muito tempo com as mesmas vaidades. O que nunca me passaria pela cabeça seria mudar de presidente, de governo – e vai daí não sei – ou de treinador de equipa de futebol.

O que é certo é que o Mundo, hoje, encena grandes e pequenas revoluções à margem daquilo que é o regular. Passa-se assim no Egipto, Tunísia e Iémen; o presidente do SCP demitiu-se e deixou a crise instalada; os adeptos do Setúbal contestaram as decisões do treinador revoltando-se; universitários lutam em prol de bolsas de estudo; e por aí fora numa infinidade de pequenas e grandes revoluções.

Espanta-me a velocidade com que as pessoas anseiam mudar um regime político, um treinador de futebol ou uma medida imposta por lei. Não me dá para ficar boquiaberto porque ainda há o direito à liberdade de expressão, na maioria dos casos mencionados. Mas o que de facto me espanta mais é ver gente com muita sede da mudança, mudança de sistema, mudança de regras, mudança daquilo que se passa à sua volta, e poucos serem aqueles que se lembram de olhar para dentro de si próprios e mudar a sua maneira de pensar. Sim, poucos são aqueles que mudam interiormente, se os houver.

Concluamos pertinentemente que, se mudarmos o sistema, tudo estará bem e fará sentido. Não é assim. Mudar aquilo que nos está subjacente e acontece à nossa volta não nos tornará pessoas exemplares ou mais felizes (talvez um pouco). Com certeza, seremos puxados e acarinhados pelo novo regime; no entanto os velhos hábitos continuarão enraizados na nossa pessoa. E será assim até se perceber que as coisas fora de nós não farão diferença, se nós não mudarmos por dentro.