"Estou cansado, é claro,
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.
De que estou cansado, não sei:
De nada me serviria sabê-lo,
Pois o cansaço fica na mesma.
A ferida dói como dói
E não em função da causa que a produziu.
Sim, estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto —
Uma vontade de sono no corpo,
Um desejo de não pensar na alma,
E por cima de tudo uma transparência lúcida
Do entendimento retrospectivo...
E a luxúria única de não ter já esperanças?
Sou inteligente; eis tudo.
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,
E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá,
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa."
Álvaro de Campos
sábado, agosto 06, 2011
Estou cansado
Escrito por Autor Desconhecido à(s) sábado, agosto 06, 2011 0 opiniões
terça-feira, maio 17, 2011
Ficção científica
Vinha eu confortavelmente sentado num banco de trás do autocarro número trinta e seis e eis que me deparo com mais um daqueles cartazes que publicitam os filmes em exibição no cinema. Lamento mas não vou fazer publicidade ao filme. Ocorreram-me imensas cenas de um filme romântico com um nome daqueles. E então comecei a pensar mais e mais, e quando pensei mais um bocadinho imaginei uma cena presente em quase todos os filmes do género – excepto se forem comédia: sempre perto do final, o(a) protagonista dão o fora, viajam não sei para onde por qualquer razão; e o outro(a) protagonista vai atrás do primeiro. E esta pequena cena deu-me que pensar. Pensei: “será que sim? Que se corre atrás de alguém?”; “será que é preciso fazer uma viagem para alguém correr atrás de nós?”; “ou será que os realizadores fazem de propósito para criar mais suspense?” (o que me pareceu a pergunta mais lógica!).
Na minha pequena dúvida sobre os filmes do género, que não os de comédia, olhei enredado pela janela com um ar tão pensativo como a estátua de Michelangelo. E vi uma menina muito bonita tipo Scarlett Johansson descer o passeio com uma t-shirt que dizia “I wait here for you” que, traduzido para português, significa “esquece lá os filmes românticos que não os de comédia”.
A mensagem que eu apreendi foi a seguinte. Na vida as coisas acontecem em tempo real. Na vida o final dos filmes não é reflectido porque as pessoas não são parvas nem ganham vinte mil dólares por fazer uma cena romântica. De facto, na vida, não temos de ter medo e desejar finais 'à la filme' porque as coisas acontecem naturalmente. Pelo menos enquanto meninas muito bonitas tipo Scarlett Johansson andarem com t-shirts que digam “I wait here for you” que, traduzido para português, significa…
Escrito por Autor Desconhecido à(s) terça-feira, maio 17, 2011 0 opiniões
domingo, março 06, 2011
Mãos
Uma está triste, coitada
ao lado da outra contente,
simples, como ela,
porém não apraz.
A segunda feliz, indulgente,
determinada
em puxar para frente
o que a puxa para trás:
a outra.
A primeira morre, fria, esquerda,
por não ser a dominante.
E fica cansada do caminho em vão;
a outra segue.
E eis que surge uma terceira:
a qual das duas dará a mão?
Escrito por Autor Desconhecido à(s) domingo, março 06, 2011 0 opiniões
sábado, fevereiro 05, 2011
O insucesso da revolta
Sempre tive a necessidade de mudar frequentemente o fundo do ambiente de trabalho do computador; ou a imagem de fundo do telemóvel; ou o toque do telemóvel. Irritar-me-ia ficar muito tempo com as mesmas vaidades. O que nunca me passaria pela cabeça seria mudar de presidente, de governo – e vai daí não sei – ou de treinador de equipa de futebol.
O que é certo é que o Mundo, hoje, encena grandes e pequenas revoluções à margem daquilo que é o regular. Passa-se assim no Egipto, Tunísia e Iémen; o presidente do SCP demitiu-se e deixou a crise instalada; os adeptos do Setúbal contestaram as decisões do treinador revoltando-se; universitários lutam em prol de bolsas de estudo; e por aí fora numa infinidade de pequenas e grandes revoluções.
Espanta-me a velocidade com que as pessoas anseiam mudar um regime político, um treinador de futebol ou uma medida imposta por lei. Não me dá para ficar boquiaberto porque ainda há o direito à liberdade de expressão, na maioria dos casos mencionados. Mas o que de facto me espanta mais é ver gente com muita sede da mudança, mudança de sistema, mudança de regras, mudança daquilo que se passa à sua volta, e poucos serem aqueles que se lembram de olhar para dentro de si próprios e mudar a sua maneira de pensar. Sim, poucos são aqueles que mudam interiormente, se os houver.
Concluamos pertinentemente que, se mudarmos o sistema, tudo estará bem e fará sentido. Não é assim. Mudar aquilo que nos está subjacente e acontece à nossa volta não nos tornará pessoas exemplares ou mais felizes (talvez um pouco). Com certeza, seremos puxados e acarinhados pelo novo regime; no entanto os velhos hábitos continuarão enraizados na nossa pessoa. E será assim até se perceber que as coisas fora de nós não farão diferença, se nós não mudarmos por dentro.
Escrito por Autor Desconhecido à(s) sábado, fevereiro 05, 2011 0 opiniões
quarta-feira, janeiro 26, 2011
segunda-feira.
Na manhã seguinte não acontecia nada de novo. O mundo não tinha acabado, a dor de cabeça não tinha passado, o casaco ainda estava pendurado no cabide. A cama ainda era a mesma, o quarto o mesmo de sempre e a luz ainda estava apagada. Olhava fixamente para o tecto clareado pela luz solarenga que entrava morna pelas frestas da janela. Aquela do dia anterior.
Na manhã seguinte não se havia perdido nada; estava tudo no mesmo lugar, o dia do calendário era o a seguir ao anterior, não havia saltos de meses nem de anos nem de verdades. A Terra não ficara quieta, as pessoas não se tinham compadecido e gentilmente parado e prestado o seu apoio, a pressa ainda era a mesma, o tempo para os outros continuava sem existir.
O despertador tocou impacientemente para um novo dia, apesar de nada de novo ter acontecido… Sabíamos que ia ser sempre assim, desde aí em diante. Talvez mais tarde.
Escrito por Autor Desconhecido à(s) quarta-feira, janeiro 26, 2011 1 opiniões
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